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segunda-feira, 13 de março de 2017

Policia que mente



Em depoimento, policiais admitem que mentiram e forjaram confronto com vítima
  • 13/03/2017 19h42
  • São Paulo




Elaine Patricia Cruz - Repórter da Agência Brasil
Durante júri popular, dois dos três policiais acusados pela morte de Paulo Henrique Porto de Oliveira, morto no dia 7 de setembro de 2015, na região do Butantã, na zona oeste da capital paulista, admitiram hoje (13) ter mentido em depoimentos anteriores e que "plantaram" uma arma perto da vítima para forjar um confronto.

O policial Tyson Oliveira Bastiane, de 28 anos, começou a ser ouvido por volta das 17h, logo após o depoimento de três testemunhas de defesa, uma delas ouvida de forma privada. Durante seu testemunho, Bastiane admitiu ter efetuado dois disparos contra a vítima, que estava rendida e desarmada. Segundo Bastiane, ele atirou contra a vítima porque ela teria tentado pegar sua arma.

Bastiane também admitiu ter mentido nos depoimentos anteriores dados a investigadores do caso, quando disse que houve confronto e que Paulo teria atirado contra eles. Indagado porque mentiu sobre isso, Bastiane disse que o fez “por desespero” e por desconhecimento jurídico.

Já Silvano Clayton dos Reis, que patrulhava com Bastiane no dia do crime, admitiu no depoimento que forjou o confronto, retirando uma arma da viatura policial em que estava e colocando-a perto do corpo de Paulo.

Silvio André Conceição, último policial a ser ouvido, foi o primeiro a chegar ao local do crime. Nas imagens de câmeras de segurança, ele aparece algemando Paulo e, mais tarde, quando os policiais Bastiane e Reis chegam ao local em uma viatura, ele aparece retirando as algemas de Paulo. Após ter as algemas retiradas, Paulo é morto por Bastiane.

Versões
Nas primeiras versões dadas a investigadores do caso, Bastiane e Reis disseram que atiraram em confronto, após Paulo ter disparado contra eles. No entanto, imagens de câmera de segurança mostraram que Paulo se entregou e que estava desarmado no momento em que foi baleado por Bastiane. As imagens mostram ainda que Paulo, antes da chegada de Reis e Bastiane ao local do crime, chegou a ser algemado pelo policial Silvio André Conceição. Mas quando Reis e Bastiane chegaram, ele foi desarmado e então levado para um muro, onde foi baleado e morto.

As imagens não mostram o momento em que Paulo foi baleado. Os réus dizem que, nesse momento, Paulo tentou tirar a arma de Bastiane, que atirou nele, em desespero.

O crime
Paulo estava com Fernando Henrique da Silva, de 23 anos, e foram mortos após roubar uma moto e tentar fugir dos policiais. Imagens feitas pelo celular de uma testemunha mostraram um policial jogando Fernando de um telhado. Já uma câmera de segurança mostrou Paulo se entregando, desarmado e sendo colocado contra um muro, fora do alcance da câmera, momento em que foi morto. O vídeo mostra ainda um dos policias pegando uma arma na viatura para forjar um confronto e justificar a morte do suspeito.
Hoje estão sendo julgados apenas os policiais responsáveis pela morte de Paulo. O julgamento do assassinato de Fernando foi marcado para o dia 27 deste mês.

Os três policiais que respondem pela morte de Paulo são acusados de homicídio doloso qualificado (com intenção de matar e por meio cruel, sem possibilidade de defesa da vítima), fraude processual, falsidade ideológica e porte ilegal de arma.

Testemunhas
Uma testemunha de acusação e três de defesa foram ouvidas na tarde desta segunda-feira. A testemunha de acusação, Marco Aurélio Barberato Genghini, responsável pela investigação do caso na Corregedoria da Polícia, disse que os réus mentiram em depoimento e que mataram a vítima já rendida e desarmada.

Uma das testemunhas de defesa disse que foi salva por Reis durante um sequestro relâmpago em 2015. O testemunho dela fez Reis chorar muito e também arrancou lágrimas de várias pessoas da plateia. No entanto, não comoveu os jurados.

Duas mulheres e cinco homens compõem o júri popular que vai decidir se absolve, ou condena, os três policiais. A decisão dos jurados só será conhecida após o depoimento das testemunhas de acusação e de defesa, o interrogatório dos três réus e os debates do promotor responsável pela acusação e dos advogados de defesa. Como hoje foram ouvidas as testemunhas e os réus, a previsão é que fiquem para amanhã os debates e, possivelmente, a decisão dos jurados.

Edição: Fábio Massalli


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

No Brasil



Bloco mais tradicional de São Paulo comemora 70 anos nas ruas do Bixiga
  • 27/02/2017 14h04
  • São Paulo
Elaine Patrícia Cruz - Repórter da Agência Brasil



 O Bloco Esfarrapados, um dos mais tradicionais de São Paulo, se concentra entre as ruas Conselheiro Carrão e 13 de Maio, no Bixiga Rovena Rosa/Agência Brasil

O bloco mais antigo da cidade de São Paulo comemora 70 anos hoje (27). E para celebrar a data, o grupo Esfarrapados saiu mais uma vez às ruas do Bixiga, bairro com grande concentração de imigrantes italianos no centro da cidade. Com suas marchinhas e debaixo de muito sol, o bloco reuniu muitas crianças e também os moradores mais antigos do bairro, que ajudaram a criar os Esfarrapados.

O grupo surgiu no carnaval de 1947 e foi fundado pelos amigos Armandinho Puglisi, Walter Taverna, Tinin, Capuno e Carabina. Um cartaz espalhado pelas ruas do bairro conta um pouco da história do bloco: “Cada um providenciou uma roupa e, com um punhado de latas vazias e panelas, saiu batucando pelas ruas do bairro”.

“O bloco foi fundado assim: para você trazer a sua fantasia, seja ela qual for, e vir curtir. Essa magia foi sendo espalhada”, contou o puxador do bloco Gleison Pego, o Mineiro. “É trazer a sua fantasia e levar para o bloco a sua alegria”, lembrou.

Para celebrar a data, a diretoria conseguiu levar para a rua um antigo bonde que passava pelo local - e que hoje foi bastante fotografado pelos foliões. O bonde vai circular pelo bairro junto com o bloco. “O bonde é uma referência à forma de transporte que São Paulo teve até os anos 60, e o bairro da Bela Vista [como também é chamado o Bixiga] tinha o bonde da Bela Vista que circulava pelas ruas.  Procuramos e encontramos uma réplica autêntica nas cores e no formato do bonde para trazer de lembrança não só para quem já tinha visto e usado, mas para o pessoal novo, para ver como era o Bixiga naquele tempo”, disse Maurizio Bianchi, presidente do bloco.

Saiba Mais
Tinin, 81 anos, um dos fundadores do grupo, mas que prefere dizer que é apenas um acompanhante do bloco há 70 anos, emocionou-se com a festa deste ano. “Fiquei olhando e tinha mais de 100 crianças brincando. Chamei os pais e as mães e falei: 'vocês sabem quem são essas crianças para nós? São o futuro bloco dos Esfarrapados'. Elas é que vão dar a continuidade à nossa tradição”, disse ele. Tinin também se emocionou ao ver o bonde estacionado na rua Conselheiro Carrão, ao lado do bloco, e lembrou os tempos em que entrava no vagão para namorar. "A gente ia no fundo do vaguão e, quando apagava as luzes, a gente dava uns beijinhos", contou.

70 anos de carnaval
Segundo Bianchi, nesses 70 anos, o bloco nunca deixou de sair às ruas. “Com todas as dificuldades e situações – e o bloco passou por períodos bem difíceis – ele conseguiu se manter, se restabelecer e estamos fazendo ele caminhar”.

O jornalista Luiz Espanha, 58 anos, é presença constante nos Esfarrapados. “Saio nesse bloco desde o começo dos anos 80. É um dos melhores de São Paulo e do país. Aliás, o carnaval de São Paulo chegou e arrebentou e ninguém segura mais”, afirmou. “Ele [o bloco] toca música de carnaval, tem um clima muito bom, é seguro e alegre. E carnaval é alegria”, disse o jornalista, que esteve também em outros blocos pela capital e reclamou da falta de organização em alguns deles. “Estão colocando grandes blocos em ruas bem estreitas. Quando você espreme o povo na alegria e na cultura, você provoca violência. Faltou organização. Grandes blocos precisam de mais espaço”.

Moradora do bairro, a dona de casa Rosa Santos, 41 anos, trouxe a filha Elen, de 7 anos, para curtir o bloco. “Ela gosta de carnaval e desses bloquinhos”. Rosa disse ainda que levou a filha também para curtir outras blocos pela região. “Para quem gosta, é muito legal. E ela gosta bastante, pula muito”.

Carnaval de rua
O penúltimo dia de carnaval na capital paulista terá a apresentação de 31 blocos. A cantora Elza Soares e a banda Bixiga 70 encerram a programação desta segunda-feira no Largo da Batata, na zona oeste.
Edição: Graça Adjuto


quarta-feira, 8 de junho de 2016

Ainda sobre violencia contra mulheres no Brasil



Mulheres voltam a protestar em São Paulo contra o estupro
  • 08/06/2016 18h33
  • São Paulo




Elaine Patricia Cruz – Repórter da Agência Brasil
Centenas de mulheres estão reunidas neste momento no vão livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista, em São Paulo, para mais um protesto contra o estupro. Chamado de Por Todas Elas, o segundo ato contra o estupro foi convocado pelas redes sociais e ocorre em diversas cidades do país, lembrando o caso da adolescente de 16 anos que sofreu estupro coletivo no Rio de Janeiro. 

A intenção das mulheres é sair em caminhada, provavelmente até a Praça Roosevelt, no centro da cidade.

A cientista social Paula Kaufmann, 24 anos, que faz parte do coletivo Juntas, um dos movimentos organizadores do ato, disse que a manifestação de hoje é em solidariedade à vítima do estupro coletivo no Rio de Janeiro.

“A ideia desse ato é tanto prestar solidariedade a ela quanto denunciar esse tipo de caso e como existe negligência do Poder Público em tratar a questão da violência contra a mulher com políticas públicas. É preciso pensar em uma maneira de extinguir esse problema, seja por meio da educação, inserindo a educação de gênero e contra a violência nas escolas, ou de acolhimento das mulheres vítimas de violência, mas também de punição desses criminosos que praticaram estupro”, acrescentou Paula.

Saiba Mais
Além de várias faixas criticando o machismo e o estupro, as mulheres trouxeram um varal com várias roupas femininas penduradas, todas manchadas de sangue. Muitas delas pintaram o rosto com o símbolo feminino. De mãos dadas, elas também fizeram um imenso círculo no vão livre. Em círculo, elas cantaram: “Companheira me ajude, que eu não posso andar só. Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor.”

Algumas decidiram tapar a boca com a mensagem O Silêncio Mata. Foi o caso da administradora de mídias sociais Larissa Bortoloso, 25 anos. Larissa foi molestada quando era criança e contou que, na época, a família tentou manter o caso em silêncio.
“Fui silenciada quando aconteceu comigo, aos 12 anos. Isso, de uma forma, quase me matou, porque tentei me suicidar. Várias mulheres que são violentadas ou estupradas também não falam, não denunciam e acabam morrendo. Me enterraram várias vezes”, afirmou.

Larissa perdeu os pais quando tinha 8 anos e foi morar com uma de suas irmãs. “O cunhado dela me molestava enquanto eu dormia. Quando tive coragem de contar, eles levaram uns líderes religiosos em minha casa, fizeram esse pacto e encobriram. Eu não podia contar para ninguém.”

Agora, quando consegue falar sobre o caso, Larissa aconselha as demais mulheres que sofreram violência a não manter o silêncio e denunciar o caso às autoridades competentes. “É preciso ter cuidado em quem vocês vão confiar e fazer um escândalo, sair na rua gritando que você foi estuprada. Porque se você não fizer um escândalo, ninguém vai ajudá-la.”

Além do estupro, as mulheres denunciam outras formas de violência. Um grupo de mulheres que trouxeram seus filhos ao ato, por exemplo, denunciou a violência obstétrica. Foi o caso de Mayra Simon, 22 anos, mãe de Antonela. 

“Acho importante trazê-la porque ela é mulher e vai entender algum dia porque estamos aqui. Ela vai sofrer machismo também na pele e achei importante trazê-la. A maior violência que sofri foi no nascimento dela. Fui tratada como um animal em uma cela. Me induziram ao parto normal, que eu tanto queria, mas forçaram com medicação. Fiquei 13 horas sozinha no pré-parto. Não pude ficar com meu marido. Não pude pegá-la no colo quando ela nasceu. Fui levada para a cesárea, porque, com certeza, a indução não deu certo porque não era indicada. Fui cortada ao meio. Não pude amamentar minha filha nas primeiras 12 horas de vida. Isso foi o maior trauma de minha vida”, concluiu Mayra.

Edição: Armando Cardoso