quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Negros do mundo, antes de vir ao Brasil, informem-se: temos apartheid, somos racistas, violentos e preconceituosos



Atraídos por uma ‘vida melhor’, haitianos dão de cara com preconceito e abusos no Brasil

Geledés Categoria » África e sua diáspora

 (Photo by Michel Filho/Globo via Getty Images)




Se você quer, pega. Se não quer, não quer”. Foi assim que Alix Mustivas, de 26 anos, foi tratado pelo patrão após se machucar enquanto trabalhava na construção civil. Após fraturar a coluna o braço em dois lugares durante o trabalho – sem carteira assinada – o dono da empresa ofereceu R$ 300 ao jovem. “Eu disse que minha vida não valia R$ 300”.
no HuffPost Brasil  por  Gabriela Bazzo 



Mustivas, que teve o apoio de entidades sindicais catarinenses para receber, durante um mês, auxílio do INSS, conta que ficou dois dias sem levantar e andar. “Depois de uma semana consegui caminhar e levantar sozinho”, afirma.

Haitiano, ele está há mais de um ano entre Curitiba e Santa Catarina. Mustivas veio ao Brasil em busca de oportunidades melhores do que as que encontrava no país de origem, que ainda se recupera de um devastador terremoto, que atingiu a nação em 2010.

“Eu trabalhei em um condomínio em Santa Catarina, mas depois da temporada não precisavam mais de serviço”, conta ele, que então conseguiu um novo emprego, no setor de construção civil, sem dificuldades.

“O chefe pagava R$ 70 por dia, mas não queria assinar a carteira de trabalho.Ele dizia que ia assinar na semana seguinte, mas nunca assinava. Eu estava em uma situação que tinha que pagar aluguel, ajudar minha filha, não podia ficar parado”, conta ele, pai de uma garota de 7 anos que mora com os avós maternos no Haiti.

Atualmente, ele mora em Curitiba – “achei que lá teria mais gente para cuidar de mim”, contou – onde tem uma banda e trabalha como segurança em uma universidade particular.

Mustivas é, de acordo com dados da Polícia Federal, um dos 65 mil haitianos que chegaram ao Brasil entre 2011 e novembro de 2015.

Não há dados precisos sobre quantos haitianos vivam em Santa Catarina, mas as estimativas giram em torno de 6.000 pessoas.

“O indicativo que se tem é que em 2013, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, os haitianos tornaram-se o grupo de trabalhadores imigrantes em SC, de maior presença no mercado formal”, explica a professora Gláucia Assis, coordenadora do Observatório das Migrações de Santa Catarina, ligado à UDESC.

Em Santa Catarina, nos cinco primeiros meses do ano passado, foram emitidas 2.259 carteiras de trabalho para haitianos, mais do que o dobro do registrado ao longo de 2014: 986.

Gláucia aponta para a configuração de redes sociais, que fazem com que um imigrante “puxe” o outro para determinada cidade.

“Esse incremento da presença de haitianos no estado se deve ao fato de que a maioria quando chegou encontrou trabalho, antes da intensificação da crise econômica, e a principalmente ao fato de que os imigrantes uma vez estabelecidos e encontrando trabalho tendem a passar essa informação a amigos e parentes que vem para onde já há algum conhecido estabelecido e posso ajudar a encontrar emprego e moradia.” 

Foi a perspectiva de um emprego e a possibilidade de avançar nos estudos que levaram Alexandre Bladimy, de 28 anos, a Balneário Camboriú. Antes, ele trabalhou em um frigorífico no Rio Grande do Sul.

“Foi um momento muito duro para mim, pois meu coração não compartilha com esse tipo de lugar, com sangue, com sofrimento. Tenho um coração muito sensível”, conta ele, que trabalhou por um ano e pediu para ser mandado embora.

Após um ano sem emprego, o jovem começou a cursar Relações Internacionais na Universidade do Vale do Itajaí, onde trabalha na Secretaria de Inclusão, com o atendimento a conterrâneos.

Ele, que trabalhava como gerente de uma escola técnica no Haiti e dava aulas de idiomas, critica a falta de políticas públicas voltadas aos haitianos.

“O governo está promovendo uma política externa para trazer mais haitianos para o Brasil, mas não tem nada de políticas públicas para os haitianos aqui”, conta ele, que afirma ter sido convidado para vir ao país, mesmo com um bom emprego no Haiti , e agora se prepara para voltar ao país de origem. 

“Lá não estava muito ruim para mim. Eu ganhava bem, tanto que paguei minha passagem. Uma grande parte dos haitianos vem para procurar trabalho, mas eu tinha uma vida boa lá. O que me motivou a vir foi a boa oferta, eu esperava oportunidades melhores aqui, principalmente em avançar nos estudos.”


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Folia, folia



Sambódromo tem movimentação recorde durante desfiles do Grupo Especial

  • 10/02/2016 15h03
  • Rio de Janeiro
Alana Gandra – Repórter da Agência Brasil



 
A movimentação no Sambódromo do Rio de Janeiro nas noites de domingo (7) e segunda-feira (8), quando desfilaram as Escolas de Samba do Grupo Especial, reuniu público recorde em torno de 120 mil pessoas em cada noite, de acordo com dados divulgados hoje (10) pela Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, Liesa.

“Esse é o público total circulando pelo Sambódromo”, salientou o coordenador-geral de Vendas da Liesa, Heron Schneider. Isso corresponde a 76,5 mil espectadores, aos quais se somaram 18 mil credenciados das áreas de serviço, imprensa e organização, cerca de 18 mil desfilantes em seis escolas entrando e saindo da Passarela do Samba, além de 4 mil pessoas na arquibancada zero, próximo da concentração. “Só isso aí já chega a 120 mil pessoas”, reforçou.

Schneider destacou que a movimentação deste ano foi a maior, desde a inauguração do Sambódromo, em 1984. Até 2011, o Sambódromo do Rio só tinha um lado de arquibancadas. Em 2012, após a derrubada dos camarotes do antigo Setor 2, foram inauguradas arquibancadas do lado par da Passarela do Samba. “Só que desde que foram reinauguradas essas arquibancadas, nunca tinha conseguido vender todos os lugares. Este ano foi o primeiro que vendeu tudo. Então é o recorde dos recordes”, comemorou Schneider.

O coordenador-geral fez uma crítica velada àqueles que se posicionaram contra o carnaval em função da atual crise econômica do país. “Essa festa não tem crise, não tem (vírus) Zika, não tem nada. É a maior festa do mundo”, garantiu.
A expectativa da Liesa é de que, na noite do desfile das campeãs, no próximo sábado (13), os 76,5 mil ingressos serão vendidos. “Se vender tudo, nós deveremos ter de novo 120 mil pessoas movimentando o Sambódromo”.
Edição: Denise Griesinger

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Toda a beleza da África


Joburg Ballet, o outro

 sonho de Mandela
 



 PARTE DOIS
Em meio a um descampado, quando acabam as casas baixas e um conjunto de barracos aos quais não se pode passar com indiferença, ergue-se o novo Teatro de Soweto, inaugurado em 2012, com seus volumes de azulejos coloridos. Tem duas salas e abriga todos os grupos de artistas da região: há balé moderno e tradicional. “Tinha de começar de alguma maneira”, diz um funcionário sorridente e orgulhoso do exuberante conteúdo. Diante do teatro há um coliseu aberto para mais de 10.000 pessoas. Tudo está sendo pensado grande, e nesse entrelaçar de sonhos e metas o balé já está inserido. No anfiteatro as marcas do vandalismo, grafitis, um desleixo que parece vir no mesmo pacote que o clima abrasador que oxida depressa as grades na área da plateia.
O Joburg recebe ajuda da prefeitura, da região e de outros órgãos públicos, mas o que o faz viver de verdade são os patrocinadores privados. Em seus salões de ensaio, amplos e ensolarados, a atividade não para nunca: quando a companhia termina de ensaiar, chegam os menorzinhos da escola, e também há aulas para adultos e de aperfeiçoamento para professores. A abundância de escolas privadas não tirou a força das atividades do Joburg. Lentamente a dança se torna popular.
 Lindé Wessels, solista do Joburg Ballet, em um espetáculo para estudantes. / Charlotte Kennedy


A maioria das academias privadas adota o método inglês de balé e, na companhia, ele convive com o ensino das escolas cubana e russa. Há alguns anos o Joburg firmou um convênio com a Escola Nacional de Balé de Havana, e regularmente Cuba envia professores, ensaiadores e bailarinos. “Melhor que nos mandem instrutores de balé do que soldados, como mandaram a Angola”, comenta com ironia um funcionário da administração. Alguns professores cubanos vieram por meio ano e já estão há mais de três: encontraram outra casa. Nem todos pensam da mesma maneira, e há quem deseje que o domínio seja da escola britânica, seus modos e seu estilo, conhecida como Royal Acadeny, uma identificação que compartilha motivos históricos com o fato de que no país se dirige pela esquerda e as receitas incluem torta de rim: os tempos coloniais e seus rastros. Sendo práticos, não há grandes contradições nem abismos nos métodos de ensinar balé, a não ser sutis questões didáticas e plásticas.

Os bailarinos cubanos que viajaram para a África do Sul eram majoritariamente negros e mulatos. Alguns, como também os brasileiros, não tinham sido capazes de encontrar seu lugar nas fileiras da companhia oficial cubana, onde também se fala sutilmente de racismo. Sua presença estimulou a população negra a levar os filhos para estudar balé: não era algo que tinha sido calculado, mas deu resultados. O início foi duro, mas a visibilidade dos artistas da dança nos meios de comunicação pouco a pouco abrandou o ambiente. Ao mesmo tempo se ampliava o repertório tanto clássico como moderno com o entusiasmo que significava poder assistir aos concursos continentais da modalidade. A dança moderna abria caminho aos poucos, ia por sua vez desbravando outra selva de preconceitos, alguns compartilhados.
O primeiro balé oficial estava em Pretória, depois se tornou famoso o da cidade do Cabo e agora chegou a hora de Johanesburgo. Quando se consulta a prestigiada The International Encyclopedia of Dance, de Selma Jeanne Cohen, o item África do Sul tem quase 20 páginas ilustradas. A paixão pela dança sempre esteve ali, “latente ou nos passeios dos domingos”, diz uma professora. Na enciclopédia todas as fotos do balé clássico que aparecem são de artistas brancos; aos negros é reservado o folclore e o surgimento da dança moderna. O balé é sempre mais complexo, seus modos, seu rigor sugerindo empertigamento, seus títulos emblemáticos, a lentidão para obter resultados cênicos.

Desmond Tutu apoiou pessoalmente um projeto de divulgação do balé da Cidade do Cabo que ainda funciona, e Nelson Mandela, ao falar das artes, fazia pé firme na dança. Ambos evocavam a música e a dança como elementos imprescindíveis da identidade cultural e da regeneração do orgulho nacional, do próprio desenvolvimento de qualquer consciência humanística. Agora atravessam a praça com suas mochilas crianças negras que vão à sala de balé, algo impensável até pouco tempo atrás.

Keke Chele e Kitty Phetla, sul-africanos e negros, são os solistas da companhia e um emblema por sua tenacidade, pela maneira com que contornaram as dificuldades ao iniciarem suas careiras. Ambos são muito populares na televisão e na imprensa. Keke Chele se especializou nos papéis de pessoas mais velhas e tira um enorme partido de seu lado cômico; Kitty Phetla faz a versão particular de A Morte do Cisne enfronhada em um tutu escuro, não no branco imaculado que marca a tradição russa. Essa peça se tornou um símbolo de luta e é uma das que o Joburg Ballet carrega como estandarte. Phetla não se cansa de repetir sua mensagem: o balé é nossa vida, é universal, e é preciso apoiá-lo.