Foi assim no Brasil - Semana passada
foi o cemitério ou o necrotério de
qualquer projeção saudável para o Brasil. Tudo que não era para acontecer e que
aumentaria a volatilidade da economia, aconteceu. O fator
mais cruel para a percepção da crise foi o aumento seguido e implacável da
moeda americana.
E é realmente um dos maiores
problemas não apenas para o Brasil. O mundo inteiro sofre com a desvalorização
do yuan. E sofre ainda mais com a possível
subida da taxa de juros americana. Aumento
da taxa de juros nos Estados Unidos funciona como um sugador de recursos em todo o mundo. Devido a sua estabilidade monetária
e histórico de confiança resistente, os americanos gozam do privilegio de serem
exportadores de crises e momentos econômicos ruins e importadores das
desvantagens de parceiros e rivais.
Efeitos nocivos sobre o elevado
endividamento da Petrobras que o dólar neste valor traz, chega a aumento de até
74,8 bilhões de reais. A divida da Petrobras é em dólares ou outras moedas, o
que expõe ainda mais a estatal. Sua receita também é atrelada, ocorre que não aumenta
na mesma velocidade.
O risco é a caminhada do dólar para
os R$4,00 reais. Tudo no pais pode explodir, até sua receita de exportações, o
que não seria mau.
Disputa por dólares
Na sexta feira havia negociações
apertadas entre as varias corretoras e seus clientes. O dólar turismo chegou a
R$4,08. Houve quem desse desconto de até 1% na cotação em compras feitas pela
internet.
O que podemos aguardar dessa semana
que terá apenas 4 dias úteis não se sabe. A crise politico só agrava, mediante
abertura de novas investigações dentro do núcleo duro do governo, os ministros Aloisio Mercadante e
Edinho Silva, denunciados pelo dono da UTC Ricardo Pessoa.
Publicado há 1 dia - em 8 de agosto de 2015 »
Atualizado às 10:19 Categoria » Em Pauta
Nada mesmo. Nossa opinião é que Dilma e
o PT devem terminar o mandato. Não teria nenhum outro partido que faria
diferente. Eduardo Cunha e Renan Calheiros são reféns, bandidos e estão
envolvidos em toda sorte de crime no Brasil. Este texto, retirado do Portal
Geledés também exprime nossa convicção de que esta acontecendo agora um golpe no
nosso pais.
Segundo a psicanalista, a democracia é um valor inestimável, é o cidadão tem
que preservá-la e defendê-la sempre; “A mídia é conservadora, no entanto, a
imprensa, as televisões, o patrão deles não é só o dono da empresa, o patrão
deles são os leitores e os telespectadores. Se a imprensa fica mais
conservadora é porque esses leitores estão mais conservadores, uma coisa
alimenta a outra”, diz ela
Por Walber Pinto, da CUT-SP , no Brasil 247 São Paulo –
“Nada justifica um golpe no Brasil, nem de direita e nem de esquerda,
mas a possibilidade de isso ocorrer assanha setores conservadores, até então
desconhecidos, e que hoje se sentem à vontade para pedir a volta dos militares.
Com isso, demonstram, inclusive, desconhecimento sobre a ditadura militar e os
casos de corrupção que assolaram os governo nos anos de chumbo.” A opinião é da
psicanalista, especialista em Psicologia pela PUC-SP, ensaísta e jornalista,
Maria Rita Khel, indicada, em 2010, pela presidenta Dilma Rousseff para
integrar a Comissão Nacional da Verdade, que investigou os crimes durante o
período da ditadura.
Nesta semana ela recebeu a reportagem do Portal da CUTem seu
consultório, no bairro de Perdizes, em São Paulo, e demonstrou preocupação com
o cenário político. “Esse é o pior momento que vivemos, com esse atual
presidente da Câmara dos Deputados.”
A autora do livro “Ressentimento” (editora Casa do Psicólogo), que
aborda quatro pontos de vista diferentes – na clínica psicanalítica, na
produção literária, nos movimentos sociais e na filosofia, analisa o avanço do
ódio e do conservadorismo no país. Veja a entrevista a seguir:
Como você avalia esse momento da conjuntura
política em que setores conservadores de direita avançam e pedem o impeachment
da presidenta Dilma?
Eu tenho tanto medo dessa onda conservadora que está na sociedade que
não consigo dizer se vai ou não ter impeachment, porque o medo me impede de
enxergar claramente a conjuntura. O fato do Eduardo Cunha estar na operação
Lava Jato, quer dizer, isso que é triste, porque não podemos contar com a
sociedade para defender o governo. Quem está mobilizado nesse momento é a
direita pelas redes sociais e pelo descontentamento que já vinha desde o
governo Lula, mas que estava em minoria por não querer o governo do PT, além de
estarem mobilizados pela crise econômica. Isso, não é absurdo que, quando os
governos de esquerda, mesmo que sejam moderados, estão no poder, quem está
insatisfeito é a direita, então é ela quem vai pra rua. Só que esse governo de
esquerda não criou base de esquerda, pois fez tanta concessão com a direita que
ficou atordoado.
Outra coisa que também criticamos [do Lula] foi a coalizão com o PMBD,
embora o PMDB no período militar tenha sido um partido valoroso – porque o MDB
foi um partido que teve elementos valorosos de oposição e, quando virou o PMDB,
principalmente depois das alianças com os governos petistas, vira um partido
ônibus: entra quem quer. Esse é o pior momento com o atual presidente da
Câmara, Eduardo Cunha. O PMDB quer estar perto do poder, seja ele qual for. Se
naquele momento o Executivo tivesse colocado limite nas reivindicações, o PMDB
não iria deixar de apoiar e nem virar oposição. Tanto que ele só vira oposição
hoje porque o governo está desprestigiado por conta de uma crise econômica.
Quer dizer, é um partido sem moral, sem fibra. É fácil virar oposição e ficar
chantageando a presidenta, no entanto, quando Lula estava forte, era a hora de
ter barrado e não barrou.
Mesmo não havendo fundamentação jurídica para o
afastamento da presidenta Dilma alguns especialistas afirmam que pode
acontecer. Podemos falar em golpe?
Se não há fundamentação, quer dizer que vai existir? Não tem elementos.
Vai trazer o exército? Eu não sei se a imprensa espelha algo que está
acontecendo no país. Acho a democracia um valor inestimável, temos que
preservá-la, defendê-la sempre de qualquer maneira. Nada justifica um golpe,
nem de direita e nem de esquerda, um golpe que suprime a democracia, que
suprime a liberdade. Há uma retomada do conservadorismo, inclusive uma direita
pra lá de conservadora que pede a volta dos militares. Isso é de uma ignorância,
é como se os militares viessem colocar a ordem na casa. A corrupção endêmica
começa na ditadura porque não havia notícia, nem imprensa livre e nas estatais
permitia-se que se metesse a mão. A sociedade brasileira nunca conseguiu
erradicar a corrupção, inclusive a corrupção nas grandes estatais começa ali.
Mas no ponto que nos dói mais, há uma responsabilidade do PT, nessa
despolitização da sociedade brasileira.
E como você avalia o comportamento da mídia nesse
processo?
A mídia é conservadora, no entanto, a imprensa, as televisões, o patrão
deles não é só o dono da empresa, o patrão deles são os leitores e os
telespectadores. Se a imprensa fica mais conservadora é porque esses leitores
estão mais conservadores, uma coisa alimenta a outra. A Folha de S. Paulo no
final dos anos 1970 virou uma imprensa progressista quando a grande parte da
sociedade brasileira estava contra a ditadura. Na ditadura, a Comissão Nacional
da Verdade não conseguiu comprovar isso e não lembro se está anexo dos
relatórios; dizia-se que Octávio Frias [morto em 2007] emprestava os carros pra
levar presos ou cadáveres. Então, não é que eles eram contra a ditadura por
princípios, mas quando foi crescendo a onda de insatisfação no país pelos
militares, a imprensa se coloca contra. Não dá para saber quem vem primeiro, se
é o ovo ou a galinha.
Há uma torcida [por parte da mídia] contra o atual
governo?
É claro que tem uma torcida contra o governo do PT. Eu não acho que a
imprensa seja golpista, ela é de direita, conservadora. Naquela outra passeata
da direita [15 de março deste ano] a estimativa da Globo era de 1 milhão de
pessoas e a PM, que é PM, falou em duzentas mil e olhe lá . Nós [esquerda] temos
que fazer crescer o Brasil de Fato, o Portal da CUT, a TVT e a imprensa de
esquerda.
A Câmara dos Deputados, sob comando de Eduardo
Cunha, tem colocado pautas que vão contra os direitos dos trabalhadores e
contra os direitos humanos, como é o caso da terceirização, do financiamento
empresarial de campanha, da maioridade penal e da PEC 451, que viola o direito
à saúde, entre outras. Qual sua avaliação sobre isso?
O que eu posso dizer desse Congresso? No caso das igrejas evangélicas
não sei analisar o crescimento delas, eu respeito as religiões que vieram do
protestantismo de Lutero, mas é claro que essa bancada é uma bancada mais
conservadora. Avaliar o Congresso nesse momento é me pedir pra dizer um monte
de palavrão porque é uma decepção gigantesca, porém a sociedade votou nesses
representantes. Eduardo Cunha é uma pessoa que não se detém diante do apelo ao
bom senso, da moralidade. Ele tem um projeto pessoal, manipula fortemente, não
sei em que base ele manipula, me parece que tem uma prática mafiosa, isso é o
que os jornais dizem.
Podemos falar que o Brasil está passando por uma
crise institucional, uma falência na representatividade dos partidos políticos?
Eu gostaria de poder dizer que há uma falência, e que os partidos não
representam a sociedade brasileira, mas eu posso está errada porque os partidos
talvez representem a sociedade brasileira. Talvez a sociedade brasileira esteja
num retrocesso conservador, já que ela tem uma tendência conservadora. O Brasil
foi o último país livre dos países do ocidente a abolir a escravidão. Foi uma
elite que deitou na sopa porque os outros países já tinham abolido, e que só
deixou de ser porque se tornou economicamente inviável por uma elite cafeeira e
canavieira.
Nas duas ditaduras que tivemos aqui, a oposição foi fraca. Se
considerarmos a oposição à ditadura Argentina, Chilena e Uruguaia, não é que lá
houve muito mortos e muitos mais presos, porque as ditaduras eram brutais –
aqui houve menos porque teve menos oposição. A questão é que a passeata dos cem
mil em apoio ao Jango foi superada pela Marcha da Família com Deus pela
Liberdade. A sociedade do Brasil na sua formação socioeconômica é conservadora.
Muitas mudanças progressistas foram efeitos de arranjos da elite, porque não
valiam mais à pena como é o caso da escravidão e da República. E, mesmo assim,
no caso da República o primeiro grande ato qual foi? Reprimir Canudos de uma
maneira horrorosa e violentíssima. Então, tem um conservadorismo aqui, principalmente
com os pobres, com os quilombolas, camponeses.
Os docentes não
contribuem para o conhecimento da cultura africana
Republicamos este texto para Angola porque é um vislumbre do que
acontece no Brasil. Não há um posicionamento real sobre como entendemos ou
vemos a África. Mesmo entre as elites engras ainda não há consenso. Vivemos num estado racista e
segregador que insiste em não reconhecer
suas origens. É um trabalho espetacular, mantive os comentários porque complementam
as ideias descritas.
Resumo
O desconhecimento sobre África vem também pelo desinteresse dos
docentes, que atingem fatores extremos e recuso a sua própria identidade, um
dos motivos do desinteresse em abordar assuntos reais sobre a história da
África é o preconceito e a religião de cada docente e a gestão escolar, gestão
essa em que na maioria dos casos, não encaram o estudo da história de seus
descendentes como disciplina obrigatória, mesmo ela estando sendo reconhecida
pela Lei 10.639/03, prejudicando assim o conhecimento e a construção de uma
cultura colonizada.
por Fabiano Correia de Araujo via Guest Post para o Portal Geledés
RESUME
Lack of
knowledge about Africa is also the disinterest of the teachers who reach
extreme factors and refuse its own identity, one of the reasons for disinterest
in addressing real issues on the history of Africa is the prejudice and
religion of each teacher and school management, management such that in most
cases, do not view the study of the history of his descendants as a compulsory
subject, even though she was being recognized by Law 10.639 / 03, thus
hampering the knowledge and the construction of a colonized culture.
Introdução
Relatar sobre o tema história da África em sala de aula, encaramos
algumas dificuldades, mas abordava o tema quando ministrava aulas. Preparar
conteúdos sobre continente africano e compartilhar com os educandos em sala de
aula é prazeroso, mesmo com as barreiras existentes.
Apesar da 2 obrigatoriedade do ensino de história da África na sala de
aula ainda existem resistências por alguns educandos e do próprio corpo docente
devido principalmente à religião de cada um, causando intransigência, quando
deparados com a cultura africana, causando polêmicas em sala de aula e o não
apoio da equipe gestora escolar. Mesmo com a recusa, ainda sim conseguimos por
insistência chegar a um lugar magnifico de riqueza em conhecimento e cultura
para que as barreiras culturais sejam quebradas com o esclarecimento do tema
história da África.
Hoje, certamente as pessoas que admiram algo sobre o continente africano
somente quando compartilham informações sobre o tema através dos noticiário
fazendo julgamentos euro centristas, quaisquer publicação, seja em jornais
revistas e ou rede sociais, são motivos para se colocar contra as ideias de
tolerância ao racismo.
Todo o estudante de qualquer licenciatura possui em sua na grade
curricular a disciplina História Geral da África, mas depois de formados não
aplicam a disciplina no seu cotidiano como educador, renegando sua
descendência. Os docentes não contribuem para o conhecimento da cultura
africana
Minhas palavras
Por muito tempo ministrando aulas em escolas estaduais da periferia de
São Paulo com instrumentos de trabalho precários, utilizando como único recurso
lousa e giz, iniciava as aulas escrevendo a palavra África em letras garrafais,
independentemente da desordem da sala os educandos paravam e me encaravam,
devido a estranheza da palavra disseminavam a seguinte pergunta: África, o quem
tem?
Ao perguntar aos educandos, qual o conhecimento ou o que entendiam sobre
a cultura africana, obtive como resposta os absurdos que lhe foram informados
somente pela mídia, sem fundamentos e ou verdade, os educandos tinham como
conceito que a cultura africana era baseada em religião onde usaram o termo
“macumba”, e pela fome que hoje assola o continente africano.
Para desconstruir essa visão 3 errônea sobre a cultura
africana, eram criados debates em sala de aula, e o mais interessante, informar
corretamente e simplesmente o que realmente significa, e o que é a cultura afro
descendente, criando assim uma imagem perante aos alunos não somente de o
professor de história e sim o professor de Cultura Africana.
Um fato interessante é que a dificuldade de se trabalhar sobre o tema
África se dá principalmente por causa da religião e por falta de informação,
cerca de 80% da população é de origem mulçumana, uma religião que se baseia no
velho testamento bíblico, que é utilizado por mais de 2.000 religiões.
A falta de conhecimento sobre o continente não é culpa dos alunos, mas
sim pelo descaso apresentado pelos docentes, é preferível abordar assuntos em
que os alunos possuem um prévio conhecimento, ao invés de levar o educando a um
mundo novo, conhecer o desconhecido, em relação aos seus próprios descendentes.
Os docentes não contribuem para o conhecimento da cultura africana
Bibliografia
Araujo, F. C. (12 de 12 de 2015). Especialista. (Professor,
Artista) São Paulo, São Paulo, Brasil.
Fanon, F. (05 de 10 de 2009). Mascaras Negra Pele
Brancas. Mascas Negras Pele Brancas. São Paulo, SP, Brasil: EUFB.
obrigatoriedade do ensino de hitória da África na
sala de aula., 10.639 (Diário Oficail da União .Brasilia DF. 10 de 01 de 2003).
1 Fabiano Correia de Araujo.
2 (obrigatoriedade do ensino de hitória da África
na sala de aula., 2003)
A lei 10.639 não
pode ser incluída somente no currículo de história, por que é o que esta
acontecendo nas escolas, os docentes também não são culpados pela falta de
reconhecimento de nossa ancestralidade, acontece que vivemos em um processo de
embranquecimento do nosso país desde que a escravidão foi abolida que criou um
outro processo de negação do nosso passado africano e do nosso presente
africano e pra que se descolonize este modelo euro centrista que esta sociedade
criou e construiu não é da noite para o dia, talvez esse processo infelizmente
seja muito mais lento, mas temos que ter a esperança e a iniciativa mais preparada
dos orgãos e das políticas educacionais deste país para fortalecer e reconhecer
nossas raízes africanas e indígenas que são totalmente invisíveis aos olhos da
sociedade causando assim tantos preconceitos, racismo, sexismo e segregação da
nossa cultura e arte afro brasileira.
Muito interessante
a reflexão. Entretanto, não é correto afirmar que "Todo o estudante de
qualquer licenciatura possui em sua na grade curricular a disciplina História
Geral da África", já que eu mesma, embora tenha concluído pedagogia em
2010, não tive esta disciplina, e nem, depois como docente me foi ofertada
alguma formação sobre o tema, o que de fato, é imprescindível, já que lidamos
com questões raciais diariamente nas escolas. De fato, a questão religiosa dos
docentes parece influenciar para a ausência de debate, no entanto não podemos acusar
o docente como o único responsável, mas sim, a gestão educacional e a sociedade
como um todo, que não pauta a questão da educação para as relações
étnico-raciais como uma política pública para todos os estados da confederação.
Surama você resumiu
o que aconteceu em nossa cultura, infelizmente a falta de conhecimento a respeito
da cultura africana é fato e temos que rever a cada dia os nossos conceitos e
preconceitos. Parabéns pela sua análise rica!
Eu tenho um projeto
anual sobre a África! Postei alguns vídeos no Youtube....tive q editar, pois
não posto fotos de alunos. A escola é Profª Zilah Barreto Pacitti de Atibaia.
O que se observa é
que após os três ou quatro anos que seguiram a promulgação da Lei 10.639, que
foram de ofensiva militante para fazer vingar essa grande conquista do MNB
(lato sensu), começou a luta soturna da branquitude para apagar essa conquista.
A branquitude é esse pacto narcísico entre brancos, que necessariamente se
estrutura na negação do racismo e desresponsabilização pela sua manutenção
[Cf.Lia V. Schucman, p. 25]
A defesa e a luta para a aplicação da Lei 10.639 somente pode resultar de uma
ação coletiva: as Associações de pais e Profs. para a defesa da Lei e das
Culturas Afro-brasileiras.
Fabiano, deduzir
que VC deixou a escola pública, mas partir como justificativa, jamais atacar ao
desprezível governo tucano que torno a escola pública um terreno baldio. Temos
problemas sim, mas a origem deles que é o fundamental, sempre é ignorada pelos
pesquisadores que do seu conforto acadêmico, não olham o seu umbigo. Afinal, o
que a academia racista e alienada contribuiu para isso?
Pesquisas vão além dos aspectos testemunhais da obra de Carolina Maria de Jesus e buscam definir seu estilo e seus parentescos culturais
MÁRCIO FERRARI | ED. 231 | MAIO 2015
Cinquenta e cinco anos depois de Quarto de despejo, estreia em livro da escritora Carolina Maria de Jesus, o interesse por sua obra continua se desdobrando e tomou impulso em 2014, ano de seu centenário de nascimento – presumido, porque a própria Carolina não tinha certeza sobre a data e há discrepâncias de dados entre sua certidão de nascimento e a de batismo. Definida como “favelada” no subtítulo do livro (Diário de uma favelada), Carolina hoje é revisitada sob diversos ângulos, dada a riqueza de sua produção inédita, ou quase, e de sua vida de altos e baixos.
Carolina em foto de junho de 1960 na janela de um barraco, em São Paulo: produção literária e vida de altos e baixos continuam sendo estudadas
“Escritora, lavradora, catadora de papel, compositora, sambista, poetisa, dramaturga, cantora, atriz circense, raizeira [quem usa raízes em tratamento médico]”, assim a descreve a historiadora Elena Pajaro Peres em sua tese de doutorado Exuberância e invisibilidade. Populações moventes e cultura em São Paulo, 1942 ao início dos anos 70, defendida em 2007 no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Elena desenvolve agora no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP pesquisa de pós-doutorado sobre a diáspora africana nos manuscritos de Carolina.
A presença de Carolina (1914-1977) em círculos acadêmicos no Brasil e no exterior contrasta com o quase total desconhecimento de seu nome pelo público leitor. A sua época, entretanto, Quarto de despejo foi um fenômeno de vendas. A primeira tiragem, de 10 mil exemplares, se esgotou em três dias, outros 90 mil foram vendidos em seis meses. No exterior, ganhou tradução em 14 idiomas. A publicação do livro aconteceu depois de uma reportagem do jornalista Audálio Dantas na favela do Canindé, uma das primeiras de São Paulo. Um encontro casual com Carolina o levou a conhecer os escritos – contidos em cerca de 20 cadernos – que selecionou e editou, alterando a pontuação, mas mantendo a ortografia e a gramática originais. Carolina, que estudou apenas até o 2º ano do então chamado curso primário em sua cidade natal, Sacramento, em Minas Gerais, sempre havia confiado no potencial de publicação do que escrevia. Trechos de seus cadernos já tinham saído em reportagens de jornais, entre elas a de Audálio Dantas, publicada em 1958 na Folha da Noite. Dois anos depois sairia Quarto de despejo, já com expectativa de público.
Carolina publicaria ainda três livros em vida, com repercussão incomparavelmente menor do que a obra que a celebrizou, e deixou guardados “mais de 5 mil páginas manuscritas, totalizando 58 cadernos que contêm sete romances, mais de 60 textos com características de crônicas, fábulas, autobiografia e contos, mais de 100 poemas, quatro peças de teatro e 12 marchinhas de Carnaval”, segundo levantamento feito pela doutoranda Raffaella Fernandez, que atualmente trabalha na pesquisa Narrativas de Carolina Maria de Jesus: Processo de criação de uma poética de resíduos, no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Parte de conto publicado postumamente, em 2014, e disponível on-line
Todo esse material se encontra espalhado, e novos manuscritos podem aparecer. “Sempre que se trabalha com pessoas em movimento, tem-se que lidar com a dispersão dos documentos”, diz Elena. “Carolina entregou muitos escritos a outras pessoas, na esperança de publicá-los, e, em suas constantes mudanças, foi obrigada a deixar para trás alguns livros que colecionava com carinho.” Mesmo suas obras publicadas são difíceis de encontrar. Elena Peres pôde consultar os microfilmes de seus manuscritos na Biblioteca do Congresso em Washington, que guarda também uma cópia de todos os livros de Carolina, inclusive o romance Pedaços da fome, de 1963, e seu único disco, gravado pela RCA Victor. Os mesmos microfilmes também estão disponíveis na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, mas no catálogo da BN não constam todos os seus livros.
Foi nos livros Provérbios e Diário de Bitita – memórias de infância da escritora, publicadas inicialmente na França, em 1982, e quatro anos depois no Brasil – que a pesquisadora tem encontrado os principais vínculos entre Carolina e a cultura da diáspora africana no continente americano. “Consegue-se perceber conexões com tradições africanas que davam muita importância à palavra escrita”, diz Elena. A historiadora identifica em particular um elo com a cultura de Cabinda, hoje província de Angola, que liga a escritora à África Central. Seu avô, a quem ouvia com devoção quando criança, era ex-escravo e seus pais vinham dessa região de cultura banto, onde o exercício da formação moral e da busca do caminho reto era feito por meio de diálogos e provérbios, muitas vezes pictografados em tecidos e cerâmicas.
Parte de conto publicado postumamente, em 2014, e disponível on-line
Elena, que esteve por 12 meses em estágio de pós-doutorado no African American Studies da Boston University e que vem dialogando com africanistas e estudiosos das diásporas africanas, relaciona essa preocupação quanto à firmeza de caráter com a tradição musical afro-norte-americana do spirituals. “Como os provérbios, os spirituals comunicam o caminho a ser seguido e lamentam os seus desvios, recriando uma ética religiosa e política que foi constantemente retomada nos discursos em prol dos direitos civis, especialmente nas décadas de 1950 e 1960”, explica Elena. O avô de Carolina era cristão e comandava a reza do terço em Sacramento, o que lhe conferia autoridade moral e proeminência na comunidade.
Quando foram lançados Quarto de despejo, Casa de alvenaria (memórias de sua vida depois do sucesso do primeiro livro) ouAntologia pessoal (reunião de poemas organizada pelo historiador José Carlos Bom Meihy, publicada em 1996), costumava-se criticar a escritora por não refletir sobre sua condição de mulher e negra. No entanto, textos sobre esses assuntos encontram-se espalhados pelos inéditos e mesmo em passagens publicadas que não foram suficientemente levadas em conta na época. A doutoranda Raffaella destaca poemas e outras passagens dos escritos de Carolina que formam um conjunto ambíguo sobre essas questões – ora a autora incorpora preconceitos, ora reivindica a emancipação de negros e mulheres. Na vida, a escritora sempre se manteve tão independente quanto pôde. Preferiu ser catadora de papel a empregada doméstica e nunca quis se casar – teve três filhos de pais diferentes.
Para Elena, a noção de pertencimento à cultura negra se alimentou também do abolicionismo dos poetas românticos brasileiros e das ideias de intelectuais como Rui Barbosa e José do Patrocínio, aos quais Carolina teve acesso por influência de um oficial de Justiça mulato de Sacramento, que lia trechos de jornais para os negros da cidade que não sabiam ler. Nos exíguos dois anos em que estudou numa escola espírita, Carolina tomou gosto pela leitura, e o primeiro livro que leu inteiro, emprestado por uma vizinha, foi A escrava Isaura, do romântico Bernardo Guimarães. Dali para frente, continuou lendo tudo o que lhe caía nas mãos, entre livros achados ou recebidos em doação, o que formou um repertório de referência muito particular. “Os escritos de Carolina têm trechos poéticos de um grande refinamento e que não correspondem exatamente à literatura do período em que foram produzidos”, diz Elena.
Quando se mudou para São Paulo, em 1937, sozinha, deixando para trás família e livros, Carolina passou a escrever furiosamente. Pelos relatos que deixou, sabe-se que sua cabeça era inundada por “pensamentos poéticos”. Uma de suas anotações diz: “Sentia ideias que eu desconhecia”. Para Elena, esse despertar inesperado dá continuidade a uma espécie de missão de procura da sabedoria incutida por seu avô e impregnada de uma cultura ancestral. “Talvez ela não houvesse vindo para São Paulo se não sentisse essa necessidade”, diz a pesquisadora. “Na cidade grande, Carolina se isolou e encontrou a literatura.” Com isso, conjugou uma voz própria com a vivência que trazia do entorno. De acordo com Elena, a expressão “quarto de despejo”, numa metáfora da escritora, refere-se à favela como um lugar em que a sociedade “guarda” o que não quer mostrar na sala de visitas.
O livro de estreia da autora foi recebido como um relato testemunhal da vida na favela e, segundo Elena, no exterior continua residindo aí o interesse principal despertado pela escritora. O impacto e o incômodo imediatos causados pelo livro foi tanto que logo a prefeitura de São Paulo, na gestão do prefeito Prestes Maia (1961-65), começou uma campanha bem-sucedida de derrubada da favela do Canindé, o que resultou na remoção forçada dos moradores. Essa ação da prefeitura incentivou um grupo de estudantes a criar o Movimento Universitário do Desfavelamento (MUD), que, com a ajuda de grandes empresas, atuou na remoção de outras favelas.
A doutoranda Raffaella defende um deslocamento de abordagem que se detenha nos aspectos propriamente literários da obra de Carolina – um terreno em que mesmo o aspecto informativo dos escritos pode ser relativizado. “O universo ficcional está sempre muito presente”, diz, por sua vez, Elena Peres. “Há memória na ficção e ficção no testemunho, como também ocorre em outros autores.” A pesquisadora defende também a superação dos limites da literatura “de periferia, marginal” a que Carolina é frequentemente circunscrita. “Isso é importante, mas ficaríamos apenas com a visão do lugar e da época em que viveu após deixar sua família”, diz, ao se referir às redes transnacionais que vem traçando a partir da obra da autora.
“Como escritora, Carolina está além das determinações imediatas”, ressalta Raffaella, que organizou e promoveu a publicação do livro Onde estaes felicidade?, com dois contos inéditos da autora, em 2014 (disponível em www.letraria.net), e agora prepara a edição de um livro infantil e outro infantojuvenil. Em seu trabalho acadêmico, ela define a produção de Carolina como uma “poética de resíduos”, na qual se misturam discursos e gêneros literários e não literários, dos poemas românticos aos textos jornalísticos, das letras de sambas à radionovela e da norma culta à oralidade, à qual se incorpora um sotaque mineiro. Esse grande amálgama leva Raffaella a aproximar a atividade de catadora de papel à de escritora. “A literatura de Carolina também sobrevive de uma catação de discursos”, conclui.